Categoria: editoria

  • Parada LGBT+ 2026: Entre os Grandes Shows e a Expressão da Ala Fetichista

    Parada LGBT+ 2026: Entre os Grandes Shows e a Expressão da Ala Fetichista

    Saiba mais sobre a ala sex positive e confira nossa seleção de shows que acontecerão nos trios

    A celebração do orgulho LGBTQIA+ ganha camadas mais profundas de expressão, fetiche e liberdade urbana. Além das fundamentais e tradicionais alas de Pessoas com Deficiência (PCD) e da ONG Mães pela Diversidade, o circuito oficial consolida a Ala Fetichista e o Espaço +18. Criado para celebrar a sexualidade positiva (sex positive), as subculturas e as expressões artísticas do fetiche, o espaço afirma o corpo e a dissidência como manifestações políticas de vanguarda.

    Abaixo, você confere o guia completo com a programação prévia, o esquema de retirada de pulseiras e um roteiro curado de shows para quem quer fugir do óbvio.

    📅 Esquema de Concentração e Logística da Ala Fetichista

    Para quem vai colar e quer se posicionar no lugar certo, a dinâmica exige atenção aos dias anteriores ao grande cortejo:

    • Aquecimento Oficial (Sexta-feira, 05/06): O Sodoma Lounge Bar sedia o tradicional Jantar Leather. É a oportunidade perfeita para se enturmar com a comunidade e conhecer quem está encabeçando a organização e o movimento da ala.
    • Retirada de Pulseiras (Quinta-feira, 04/06): As pulseiras de acesso exclusivo serão distribuídas na Feira da Diversidade, no Vale do Anhangabaú. Procure pelo ponto do LOTS (Leather On The Streets).
    • O Grande Dia (Domingo, 07/06): A concentração oficial acontece a partir das 11h, na altura do Metrô Trianon-Masp. Fique atento: a Ala Fetichista será a 4ª Ala do evento, posicionada logo junto ao carro da representatividade gay.

    🔊 Roteiro Musical: 5 Shows para Fugir do Mainstream

    Se o seu objetivo é acompanhar performances que fogem do circuito comercial tradicional e apostam na potência estética, eletrônica e periférica, montamos a sequência exata de trios para você seguir na Avenida:

    • Diego Martins (Trio 01 – A Rua Convoca): Fenômeno pop e multiartista, abre os caminhos com uma energia explosiva que mistura ganchos ultra-pop e performance drag de alto impacto.
    • Zumbicore (Trio 05 – Visibilidade Bi): Nome fundamental das pistas independentes e da cultura eletrônica periférica. Seus sets tensionam os limites do grave, misturando funk e beats eletrônicos acelerados.
    • Vita Pereira (Trio 09 – L’Oréal Groupe): Artista multimídia e performer cuja presença é um manifesto visual. Transita pelo pop contemporâneo com uma sofisticação conceitual única.

    Jup do Bairro (Trio 12 – Visibilidade Trans) Cria da Zona Sul de São Paulo, sua trajetória é marcada por dar voz, corpo e textura às vivências trans e pretas através de uma mistura cirúrgica de rap, eletrônica, rock e funk. Desde o lançamento do aclamado EP Corpo Sem Juízo, Jup estabeleceu-se não apenas como cantora, mas como uma pensadora da cultura pop e underground.

    • Isma (Trio 12 – Visibilidade Trans) Uma das presenças mais magnéticas das pistas independentes e da performance urbana contemporânea. Seu trabalho une música eletrônica de vanguarda, experimentalismo pop e uma expressão corporal intensa que funciona como manifesto visual.
    • Urias (Trio 13 – Amstel): Potência do pop/R&B experimental. Com estética impecável influenciada pelo vogueing e pela moda de vanguarda, entrega beats pesados e performance de nível internacional.

    A consolidação de espaços como a Ala Fetichista junto da ação de coletivos como LOTS (Leather On The Streets) no circuito principal reafirma que o orgulho não se limita a formatos comerciais; ele se expande na multiplicidade de corpos, fetiches e identidades que historicamente construíram as bases do movimento. Prepare o visual, garanta sua pulseira no Anhangabaú e nos vemos na avenida.

  • Guia de festas LGBTQIAP+ da Semana da Diversidade 2026 em São Paulo

    Guia de festas LGBTQIAP+ da Semana da Diversidade 2026 em São Paulo

    As festas da Parada SP 2026 redefinem o circuito cultural e noturno da cidade

    Foto da Parada de São Paulo por Eduardo Araújo Silva

    São Paulo, 2026 — A cidade já está no pique para viver uma das semanas mais históricas de sua trajetória cultural e política. Semana da Parada com tema sobre as urnas, chega com uma densidade magnanima na quantidade de festas, festivais e encontros que traduzem a força, o corre e a pluralidade da nossa comunidade.

    Entre estreias internacionais aguardadas há anos, o peso dos coletivos do underground e produções que tomam a cidade, SP vira o epicentro de narrativas sonoras que vão da nostalgia clássica do eurodance e o techno de vanguarda até o grave do funk e os grandes selos eletrônicos. Este guia não é um mero agregador de eventos: é uma curadoria cirúrgica de dezesseis frentes que desenham uma maratona de cinco dias, estourando a largada já nesta quarta-feira.

    Para mapear esse ecossistema complexo e garantir a visibilidade das identidades, criamos uma legenda direta para você sacar qual é o foco principal de cada pista. Cada projeto carrega sua própria pesquisa estética e comunidade, mas todos se encontram no mesmo ponto: a celebração como ato de autonomia.

    Seja na montação histórica das drags, nas pistas autogestionadas por mulheres lésbicas, na centralidade vital de homens e mulheres trans e travestis, ou no fluxo livre da bissexualidade e/ou da gênero flúido, ocupar São Paulo agora é um manifesto de presença em sua potência máxima. Confira:

    Legenda de categorias

    💄 Drag Queens

    ⚧️ Pessoas Trans e Não Binárias

    👩 Mulheres Lésbicas

    👩‍❤️‍👩 Pessoas Bissexuais

    🐻Homens Gays Ursos e admiradores

    🔞Evento com sexualidade positiva e convite a nudez

    🧑‍✈️​Fetichista

    📅 Quarta-feira, 3 de junho de 2026

    Cascada Na Rebobi Summer Eletropride⚧️💄👩‍❤️‍👩👩
    A banda alemã Cascada desembarca finalmente no Brasil para um show inédito que vai mexer com a nossa memória afetiva coletiva, descarregando hinos geracionais como Everytime We Touch e Evacuate the Dancefloor. O Komplexo Tempo abre as portas para 8 horas de pista intensa focada em eurodance e trance.

    Silver + Bunker Pride Festival ⚧️💄👩👩‍❤️‍👩 Dois selos se unem em um back-to-back, repetindo o duelo que marcou a cena clubber no ano anterior. São mais de 18 artistas confirmados, incluindo Aya Ibeji, Alma Negrot, Cafezin, Evehive x Mirands, Papisa, Tati Lisbon e Irmã Victória, entre outros. O festival ocupa duas pistas simultâneas, com sonoridades que transitam entre trance, techno, latin house, tribal e hard dance.

    Bigger Disco Ball 🐻🧑‍✈️
    Nome tradicionalíssimo no circuito bear, a festa ocupa o Kiki Klub trazendo no line-up DJs internacionais de peso, como o mexicano Isak Salazar. O ambiente é focado em ursos, barbudos e admiradores, mantendo aquela atmosfera clássica que une acolhimento, peso e flerte.


    📅 Quinta-feira, 4 de junho de 2026

    SXO Ato X – Pré-Parada🔞⚧️🐻👩‍❤️‍👩🧑‍✈️
    O underground se manifesta na República em uma edição crucial, locação secreta! Comandando o som e o conceito visual, o line-up traz Another Dudx, Ojo Ara e Kebra Louça prometendo pegar fogo logo na véspera de feriado, trazendo a estética fetichista, eletrônica e a cultura de clube noturna num mix para quem está préparado.

    Soda Pop Party – Edição Pride🐻🧑‍✈️
    A Blue Space abre espaço para uma mistura fina de flashbacks e as produções eletrônicas que estão batendo agora nas pistas. Estrutura com 4 bares, darkroom e mezanino, sob o comando dos VJs Robson, Alkay e Tico Malagueta.

    Realness Showcase – 4 anos KTKB💄⚧️👩👩‍❤️‍👩
    O festival celebra o aniversário do Kat Klub com performances brutais de Kitty Kawakubo, Ruby Nox e Dacota Monteiro. A noite é uma celebração de quatro anos de protagonismo absoluto da arte drag na Rua Augusta.

    O evento está alinhado com a RuPaul’s Dragcon Brasil que acontece no expo-center norte nos dias 5 e 6 de Junho com mais de 60 drag queens confirmadas!
    As brasileiras recebem rainhas mexicanas, inglesas, estadunidenses, espanholas e canadenses que marcaram (e ganharam) alguma das franquias do programa para a estréia da convenção no BR!

    SVRVRV Pride SP 2026⚧️💄👩‍❤️‍👩  
    Ocupando o Cine Jussara, a SVRVRV monta sua pista experimental com Aerobica, Turned On e Tassio Baía. Uma imersão para quem busca novas linguagens sonoras fora do óbvio.


    📅 Sexta-feira, 5 de junho de 2026

    Muchachos Proibidão Carioca🐻🔞🧑‍✈️
    A energia das noites do Rio invade o Hunter Club, operando uma fusão ousada entre o funk proibidão, tribal e techno. Estética urbana e fetichista, com dress code afiado para quem quer se jogar no clima de pegação.

    Cardume Pride 26👩 👩‍❤️‍👩⚧️💄
    Chegando à sua quinta edição no Sonora Garden, a Cardume se firma na pesquisa refinada de house music e disco. Line-up com Aya Ibeji, Massimiliano Pagliara e Roi Perez, em espaço que prioriza acessibilidade e conforto.

    Festa Alicate – Queer Pride Edition👩‍❤️‍👩 💄👩⚧️
    Com postura irreverente e sem amarras, a Alicate convoca DJs e performers para uma edição focada na diversidade radical. Estética alternativa com centralidade para a cultura drag e trans.


    📅 Sábado, 6 de junho de 2026

    Kevin Pride 2026 💄👩‍❤️‍👩🔞
    A Fabriketa recebe uma das maiores forças da noite independente paulistana. Duas pistas e megadarkroom, com Zebra Katz (EUA/Berlim) e Clementaum falando que vai mais forty!

    Ultraffair Pride 2026 ⚧️ 💄👩👩‍❤️‍👩  
    O Komplexo Tempo vira palco para um festival de 12 horas seguidas de música, com múltiplos palcos e trânsito entre artistas nacionais e internacionais.


    📅 Domingo, 7 de junho de 2026

    Pride – Agrada Gregos 👩‍❤️‍👩  
    Mega festa na Audio, com 2 pistas, trio elétrico e banda de pagode. Produção grandiosa com 15h de programação que mistura carnaval, eletrônica e pagode em uma só celebração.

    Teddy Orgulhosa After 2026 🐻  
    After oficial na Rua Augusta, com hits pop e trânsito intenso da cena bear. Pessoas trans e drags têm entrada VIP, reforçando o caráter inclusivo da noite.

    Pride nas Alturas 2026 👩 ⚧️💄👩👩‍❤️‍👩  
    Camarote rooftop na Consolação, com três níveis: lounge, club e vista panorâmica da Parada. Serviço premium, open bar e curadoria artística dedicada.

    O Guia LGBTQIAP+ Semana da Diversidade 2026 não é apenas uma agenda de festas, mas uma curadoria inclusiva que se importa com todas as letras da sigla. Cada evento é um manifesto de liberdade e resistência, reafirmando o papel de São Paulo como epicentro global do orgulho.

    Mais do que música, o Pride é sobre pertencimento: ocupar espaços, celebrar identidades e construir memórias coletivas. Em 2026, a cidade pulsa em cada pista, em cada palco e em cada abraço — mostrando que o orgulho é, acima de tudo, viver a diversidade em sua forma mais autêntica.

  • O Legado Musical de Renato Russo: The Stonewall Celebration Concert

    O Legado Musical de Renato Russo: The Stonewall Celebration Concert

    Em 1994 Renato Russo (27 de março de 1960 – 11 de outubro de 1996)  lançava seu primeiro disco solo totalmente em inglês. The Stonewall Celebration Concert era uma homenagem aos 25 anos da revolta de Stonewall, iniciada por Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera.

    O disco conta com 21 canções, e nenhuma delas é de sua autoria. O projeto nasce inspirado por um álbum de Nick Drake, artista de quem Renato era grande admirador.

    A canção Clothes of Sand, de Drake, é a faixa dois desse lançamento solo do artista brasiliense. O disco também inclui Cathedral Song de Tanita Tikaram, que mais tarde ganharia uma versão em português feita por Zélia Duncan. Há ainda canções de Madonna, Bob Dylan, Quincy Jones, Lionel Richie, Gretchen Cryer e outros nomes importantes.

    Originalmente o álbum foi concebido com 48 músicas. O primeiro corte reduziu o conjunto para 30 faixas, mas devido às limitações do formato dos CDs, o disco passou por mais uma edição e ficou com 21 canções. Algumas gravações foram lançadas posteriormente no álbum póstumo O Último Solo.

    A gravação aconteceu entre fevereiro e março de 1994. O site oficial menciona que Renato foi ex-aluno e ex-professor da Cultura Inglesa e elogia seu inglês impecável.

    Outro destaque é a canção de Quincy Jones Miss Celia Blues, que integra a trilha sonora de A Cor Púrpura. Renato também incluiu sua homenagem ao Pinóquio da Disney com When You Wish Upon a Star, de Ned Washington e Leigh Harline. Vale notar ainda a curiosidade de ouvir uma música de Madonna em uma versão folk interpretada por Renato.

    O encarte trazia informações de vinte e nove entidades sociais, entre elas o Grupo Gay da Bahia, o ISER, o Greenpeace, a Sociedade Viva Cazuza e a ABIA. Parte dos royalties foi doada à campanha de Betinho, Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

    Renato idealizou o disco como homenagem ao ex-namorado, Robert Scott Hickmon. A canção Vento no Litoral também é dedicada a ele. Scott, norte-americano com quem Renato se relacionou e chegou a morar alguns meses no Brasil, mas vivia em Nova York, onde o casal se conheceu.

    Scott havia namorado um paciente com AIDS antes de conhecer Renato e acabou transmitindo o vírus ao cantor, que descobriu o HIV após o término do relacionamento. Depoimentos de amigos contam que Renato se envolveu com Scott ciente de que o ex-companheiro do norte-americano também havia morrido por complicações da imunodeficiência.

    Renato faleceu em 1996 aos 36 anos, em decorrência de broncopneumopatia, septicemia e infecção urinária, consequências do contágio pelo HIV. Ele descobriu a doença entre 1989 e 1990.

    “If equal affection cannot be let the more loving one me be.” W.h. Auden

    Se não for possível haver afeição igual, Que o mais amoroso seja eu

  • Setembro amarelo, meus amigos e eu: Existe uma aura densa em cima das nossas cabeças

    Setembro amarelo, meus amigos e eu: Existe uma aura densa em cima das nossas cabeças

    Existe uma aura densa em cima das nossas cabeças, um cheiro de morte que não cessa.  Quando cada vez que parece que as coisas estão encontrando um novo lugar, o vazio aparece, remove o contorno da presença de alguém, mais alguém que se foi — muitas vezes, antes da hora.

    “Eu amo vocês 
    Eu só tô defendendo uma parada que é pra sempre
    E nunca mais volta
    Lá vem a morte
    Cheiro de dor
    O céu é forte
    Eu também sou
    Lá vem a morte
    Cheiro de dor”

    Trecho de “Lá vem a morte” da banda Boogarins

    Eu me acostumei com a visita frequente da morte, mas ela não deixa de me machucar. Tudo começou no dia das mães de 1998.  Fui avisado que ela e minha avó tinham ido ao enterro da minha tia avó, Edinaura, que morreu precocemente com complicação da leptospirose.

    Em memória / In memoriam

    Depois dela me lembro que no decorrer dos meus 35 anos se foram Marcel, Nelson, Fúcsia, Claudinho e Thiago, meus amigos e amigas, meus amores que tiveram suas vidas ceifadas muito cedo. E eu, hoje, após quatro tentativas frustradas me pergunto como consegui levar adiante a minha própria vida e como, depois de ter aceitado o fracasso no suicidio.

    Talvez eu ainda me lembre daquele sentimento de fraqueza e a unica maneira de me sentir forte foi prometendo que eu iria viver a partir de agora por teimosia, que eu iria até o momento que tinha que ir, e então pensei como transmitir um pouco desses sentimentos agridoces para para aqueles que estão ao meu redor?

    Parabéns pra você


    O  meu aniversário sempre foi algo difícil para mim, há alguns anos percebi que havia possibilidade de um certo tipo de fracasso, da ausência de amigos na comemoração, ou apenas por não sair nada como planejei que são os motivos aparentes dessa sensação. Não sei como vou me comportar. Mas esse ano, logo antes do meu aniversário, o meu melhor amigo pulou do 40º andar de um prédio no centro de São Paulo. Não foi nada fácil de entender, mas com o tempo algumas coisas ficam menos dolorosas e mais analíticas, não sobre quem foi, mas sobre quem ficou, no caso eu.

    Celebrar é preciso

    Meu mundo mudou, minha rotina, meus sentimentos, minha maneira de ver o mundo sofreu um deslocamento de retina e agora não sei voltar para como era antes, nem sei se quero, mas senti tanta dor que achei que não fosse suportar.

    E por isso tenho pensado sobre a importância de realmente celebrar minha existência de vida a cada ano, com pessoas que se importam comigo, que estão convivendo ao meu lado. Porque é realmente difícil você conseguir acreditar e viver (não apenas sobreviver) nesse mundo. A vida não é fácil.

    Lutando todo dia

    Se tantos amigos não resistiram, obviamente que eu fiquei realmente com medo de também não resistir, não apenas eu, mas minha mãe que me deu um suporte e sofreu muito junto comigo, por me ver triste. Muitas lágrimas caíram, o luto é um dos sentimentos mais densos e complexos que eu já pude sentir. Talvez ver o contorno de alguém não existir mais no mundo e como as pessoas seguem suas vidas é que no começo doa tanto. 

    Foto _ Em memória: Thiago Roberto, 2023

    Lavar os copos, contar os corpos e sorrir. A essa morna rebeldia

    Mas é que a gente continua seguindo pela força que o mundo tem ao girar, então nos resta ou aceitar e sair produzindo sentido de vida, tentando fazer com que a sua existência e o legado e memória de quem se for, valha a pena ou ficar moribundo triste no canto. Realmente o que a gente precisa nessa fase é força.

    O silêncio é algo que precisa de espaço, algumas coisas estão ali, guardadas no fechar da boca, no ouvir e observar.

    O silêncio é algo que precisa de espaço, algumas coisas estão ali, guardadas no fechar da boca, no ouvir e observar, estive contemplando por muito tempo para que assim, agora, quando eu voltasse ao compartilhamento dos pensamentos, escrever, falar e vibrar sobre os meus caminhos de autoconhecimento.

    Comecei a falar com amigos, família,meu ex-namorado e minha terapeuta sobre a morte em si, sem medos, sem rodeios, tanto a figura fictícia que carrega uma foice, e como se ela tomasse uma visão antropocena, como no seriado Sandman, mas também como um rito de passagem, uma manifestação que é propriamente da vida. E isso, eu entendi, ou ouvi de alguém que falar da morte é uma maneira de afastá-la.

    Não sei de onde tirei essa ideia, mas tem funcionado, e tenho pensado na ausência e como podemos conhecer detalhes de alguém que faleceu justamente pelo espaço que ela deixou ali, pelas conexões de pessoas que se aproximaram devido ao que aquele humano afetou.

    Mas também tenho observado que esse tema percorreu os meus últimos seis meses, até o momento em que chegamos no Setembro Amarelo, o mês dedicado à saúde mental e à prevenção do Suidicio.

    Falar da morte é uma maneira de afastá-la.

    Agora é o momento que devemos falar sobre isso. Entendo que a sociedade pode suicidar alguém, que a retirada da própria vida é uma busca por alívio de dor afetiva e que não está dissociada. Hoje o suicidio mata mais que a guerra, mais que a AIDS, sendo um dos maiores (se não me engano, o maior) fator da fatalidade entre jovens de 14 a 29 anos.

    O processo depressivo é algo que eu vivo e que tenho tratado, mas como alguém que já perdeu muitos e já tentou tirar a própria vida, eu posso compartilhar algumas questões sobre como ajudar alguém que está pensando sobre o assunto.

    As minhas palavras não se curvaram ao assumir que sim, perder todos esses amigos nos últimos anos me deixou assustado, com medo, em processo depressivo mais intenso novamente após anos longe do tratamento.

    Sempre priorizei cuidar dos projetos coletivos, mas é interessante se perceber que eu me isolei e que tentei ao máximo manter distância de viver em sociedade, parece que foi uma forma de fazer o mundo parar pra mim. O cuidado que me preocupei em manter foi uma rede forte de poucos amigos que eu sei que poderia contar e que não estavam tão fragilizados quanto eu. 

    Minha terapeuta, alguns livros, músicas e séries foram meu refúgio, mas a quem eu devo a minha cura nesse momento foi a escrita. Voltar a escrever, assim como desenhar me deu força para perceber cores, alegrias e sensações que me levaram para longe da melancolia tão forte do luto.

    Viajar e sair um pouco do mesmo ambiente que estava acostumado, mesmo que por poucos dias foi também fundamental para entender a divisão do tempo, e que voltando da viagem eu poderia começar ou recomeçar algo. 

    divisão do tempo, e que voltando da viagem eu poderia começar ou recomeçar algo. 

    Luto: Angela RoRô

    Este site nasce do nome da canção escrita por Léo Jaime e interpretada também por Angela RoRô “Sucesso Sexual”, nesta terça (09) no dia que estavamos seguindo com o upload desse site e deste texto, nos deparamos com a notícia da morte de Angela, essa cantora que enfrentou a sociedade com seu jeito único.

    Ela, lésbica, com questões polêmicas publicamente nunca foi alguém de mentira, morreu aos 75 anos com complicacções de uma infecção hospitalar.

    Quando estavamos nas primeiras reuniões de pauta, nossa preocupação eram as manchetes que já apareciam falando sobre a vida de Angela neste momento, ganhando apenas R$800 para sobreviver, com um semblante cada vez mais magro e doente.

    Infelizmente não conseguimos entrevista-la, nem mesmo tentar fazer algo a respeito da situação dela, o que me leva a pensar que mais uma pessoa foi morta pelo estado e por todos nós, sociedade consumidora de juventude, pelo descaso com uma das mulheres lésbicas mais confrontativas diante do conservadorismo. Em coletivo também estamos morremos aos também, mesmo que só nos reste viver.