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  • Linn da Quebrada visita clássico de Djavan em “Nuvem Negra” para expurgar as dores da depressão

    Linn da Quebrada visita clássico de Djavan em “Nuvem Negra” para expurgar as dores da depressão

    A depressão e os estados deprimidos manifestam-se de formas variadas — muitas vezes por meio de comportamentos que o senso comum interpreta como sinais de melhora, mas que são puros mecanismos de defesa. Por não apresentarem sintomas visuais constantes ou lineares, as patologias da psique ainda enfrentam o descrédito e a incompreensão daqueles que cercam o indivíduo afetado. É a partir desse lugar de vulnerabilidade e do desejo latente de vazão que a versão de “Nuvem Negra” ganha vida.

    A melancolia e o esforço para dissipar o sofrimento dão o tom dos versos da faixa:

    “Passa nuvem negra, larga o dia E vê se leva o mal que me arrasou Pra que não faça sofrer mais ninguém Esse amor que é raro e é preciso Prá nos levantar, me derrubou”

    Hiato e retorno aos holofotes

    O lançamento quebra um hiato de cinco anos desde Trava Línguas (2021), seu último álbum de estúdio. Embora tenha feito colaborações pontuais com artistas como David Sabbag e Icona Pop nos últimos anos, “Nuvem Negra” marca o retorno oficial da cantora e compositora ao seu trabalho autoral solo.

    Linn da Quebrada projetou-se nacionalmente com o aclamado disco Pajubá (2017). Ao lado de Jup do Bairro, o trabalho tornou-se um marco na música brasileira ao pautar com urgência as vivências travestis, racializadas e periféricas. Desde então, Lina Pereira expandiu sua atuação na mídia, estrelando filmes e minisséries, além de ter tido uma passagem de grande repercussão pelo reality Big Brother Brasil 22.

    A história de “Nuvem Negra”

    Lançada originalmente por Gal Costa em 1993 no álbum O Sorriso do Gato de Alice, “Nuvem Negra” é uma obra de Djavan que nunca chegou a integrar a discografia principal de seu autor. Sob a nova ótica de Linn e os arranjos de Fernando Catatau, a canção mergulha profundamente em camadas de solidão, transformando a busca pelo fim da tempestade em uma potente e necessária metáfora de cura, sobrevivência e alívio emocional.

  • ESM: Por que FKA Twigs, Robyn e Peaches tornaram o sexo na pista um ato político

    ESM: Por que FKA Twigs, Robyn e Peaches tornaram o sexo na pista um ato político

    ESM – Eletronic Sex Music em alta com Eusexua, Sexistential e No Lub So Rude

    A convergência entre FKA Twigs, Robyn e Peaches entre 2024 e 2026 marca um momento histórico: a pista de dança reforça a sexualidade de maneira literal. Não estamos mais ouvindo metáforas. Com os lançamentos de Eusexua (FKA Twigs, 2024), No Lube So Rude (Peaches, 2026) e o recente Sexistential (Robyn, 2026), a palavra sexo deixou de ser um tabu para se tornar um palco de autonomia corporal.

    FKA Twigs: A Mística da Clareza Orgásmica

    Aos 38 anos, a inglesa FKA Twigs abre esse portal com Eusexua. Sua trajetória, marcada pela fusão entre a fragilidade do R&B e a vanguarda eletrônica, atinge uma clareza inédita. Para Twigs, o sexo na pista é uma experiência mística — um estado de “clareza orgásmica” que serve como antídoto para a automação da vida moderna.

    Sua corporeidade propõe uma androginia que domina as tecnologias do corpo, traduzindo-as em sons etéreos e um visual experimental que flerta com o pós-humano. É o prazer como autodescoberta e cura.

    Robyn: Existencialismo, Maternidade e Beats 4/4

    A sueca Robyn, aos 46 anos, traz a bagagem de quem sobreviveu a múltiplas eras da indústria mantendo sua integridade emocional. Em Sexistential, ela utiliza sua posição consolidada na música eletrônica para questionar o desejo na meia-idade.

    Robyn parece estar em casa neste novo álbum excêntrico que refina as pulsações luminosas do sintetizador de Body Talk para explorar sexualidade, sentimentalismo e a criação da vida.
    Robyn parece estar em casa neste novo álbum que refina as pulsações luminosas do sintetizador de Body Talk para explorar sexualidade, sentimentalismo e a criação da vida.

    Sua contribuição é a intelectualização do ritmo. Ela prova que a pista é o lugar onde processamos nossas crises existenciais. Para Robyn, o sexo é a prova de que ainda estamos pulsantes — uma afirmação que ecoa a postura de Björk, que sempre se posicionou como uma clubber eterna. Na faixa-título, Robyn dialoga consigo mesma sobre ser solteira, mãe e navegar por aplicativos e terapia, desconstruindo o que “pode ou não” na vida adulta.

    O Vanguardismo de Peaches: Prazer contra o Fascismo

    Sonoramente, Peaches causa uma revolução contínua. Seu vanguardismo, que já pulsava em Fuck The Pain Away, ganha novas camadas em No Lube So Rude. Prestes a completar 60 anos, a canadense não está apenas revisitando o que pavimentou; ela está denunciando a aspereza do sistema.

    Ao falar de “fricção sem lubrificante”, Peaches é interseccional: traz para a composição o amadurecimento, a vivência LGBTQIA+ e a resistência contra o etarismo. Ela usa sua longevidade para provar que o prazer é uma arma política contra o fascismo e a caretice do século XXI.


    “Falar de sexo na pista de dança hoje é desmistificar uma opressão histórica. É transformar o suor em manifesto.”


    Uma Genealogia do Prazer na Música Eletrônica

    Essa ruptura não é por acaso. A virada para o “S E X O” sem metáforas deve muito a Donna Summer (1975) e ao orgasmo no centro da pista, além da crueza de Grace Jones e Madonna nos anos 80.

    Mas é no vanguardismo de Peaches, desde os anos 2000, que o termo deixou de ser um convite para se tornar um comando de autonomia. Enquanto Twigs navega pelas nuances do corpo e das relações sem rótulos, e Robyn mostra a sensualidade pós-maternidade, Peaches consolida a ESM (Electronic Sex Music) como um gênero de resistência.

    Fico feliz de ver esse termo sendo falado sem alegorias. O sexo precisa deixar de ser um tabu em nossas conversas públicas. Não há nada de profano em um ato que está no cerne da humanidade. É tempo de celebrar a fricção, a verdade e a autonomia.