Talvez você já tenha ouvido falar de Camila Sosa Villada por causa de seu romance mais aclamado, Parque das Irmãs Magníficas, lançado no Brasil em 2021 pela Tusquets Editores. Em 2024, a autora argentina lançou Tese sobre uma Domesticação pela Companhia das Letras. Embora o livro não tenha tido o impacto estrondoso de seu antecessor, ele ganhou uma adaptação cinematográfica que despertou o interesse de debatermos e enaltecer esta obra em questão.

Ressalto de antemão que o foco aqui é no filme, também de 2024, que leva o título original Tesis sobre una domesticación, com direção de Javier Van de Couter e roteiro assinado em parceria com a própria Camila Sosa Villada, que também estrela a produção ao lado do mexicano Alfonso Herrera (Sense8, Rebeldes). A narrativa se inicia a partir da vida de uma atriz trans argentina que desfruta de seu sucesso com maturidade e orgulho. Logo no começo, ela celebra uma apresentação teatral aclamada enquanto avalia novas propostas profissionais. Em uma festa, ela conhece um advogado que se apresenta como um homem gay e fã de seu trabalho. Os dois se envolvem sexualmente, dando início a uma relação que logo desperta um incômodo sútil e constante. Pessoalmente, senti como se a qualquer momento algo trágico ou extremamente desafiador pudesse acontecer, mas isso não acontece.
Apesar dos atritos, que ganham contornos cada vez mais domésticos, como o casamento, a cerimônia, a circulação social do casal e uma dinâmica afetiva e sexual complexa, a relação avança até a decisão de adotar uma criança. Todas essas etapas são enfrentadas de maneira consistente pelas forças que o poder, o status financeiro e a fama conseguem fornecer e delinear na vida de quem transita por instituições abastadas.

Há desejo, paixão, liberdade, amor, diálogo e também os desafios comuns na construção de uma família e de um lar. E é justamente ao exercitar as possibilidades e o simples direito à construção de um núcleo familiar — algo que deveria ser básico na sociedade em que vivemos — para um casal constituído por uma mulher trans como figura central que nos questionamos: por que estamos tão acostumados a assistir e esperar que as narrativas LGBTQIA+ sejam sempre marcadas por muito pesar ou por dificuldades em níveis extremos para que haja algum tipo de comoção ou insurreição?
Tese sobre uma Domesticação caminha de salto alto, constantemente na linha das possibilidades do que é real para qualquer casal de classe média alta no Sul Global, criando imagens e imaginários de poder onde o direito à família é garantido não apenas a uma mulher trans, mas também a um homem gay, culminando na adoção de uma criança soropositiva.
São camadas de liberdade e segurança que ilustram a possibilidade de problemas puramente cotidianos. Mesmo desafiando certas normas da sociedade argentina e lidando com abalos externos, não há um único momento de tragédia ou de um drama incontornável, provando que a paranoia da crise perpétua na vida de pessoas LGBTQIA+ pode ser desmantelada pela força de novas e plurais narrativas.
O filme esteve presente na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires (BAFICI) e está disponível para assistir pela Prime Video.


