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  • Legado, erotismo e luta: Coleção de Roberto Pontual vai a leilão em Paris com obras de Alair Gomes

    Legado, erotismo e luta: Coleção de Roberto Pontual vai a leilão em Paris com obras de Alair Gomes

    Neste mês, no dia 31 de Março de 2026, o icônico Hotel Drouot, em Paris, promoverá um leilão e celebração histórica da arte e da memória LGBTQIA+ brasileira. A casa Maurice Auction leva a leilão o acervo pessoal de Roberto Pontual (1939–1994), um dos críticos mais influentes do país. Roberto Pontual nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 1939, mas construiu sua base intelectual e carreira no Rio de Janeiro e terminou sua vida em Paris, na França, em 1994. Mais do que uma coleção de quadros, o evento revelou a cartografia afetiva de uma vida compartilhada entre Pontual e seu marido, Vincent Wierink.

    Roberto Pontual no jardim do MAM Rio de Janeiro em 1987 (Foto: Pedro Karp Vasquez)

    O leilão é uma das primeira venda desta escala dedicada à arte brasileira na Europa — e também um dos primeiros que destinará parte da arrecadação foi destinada à Sidaction, fundação francesa que lidera a luta contra o HIV/AIDS. O gesto honra a trajetória de Pontual, que faleceu e em decorrência da Aids, transformando sua herança intelectual em investimento para a vida e a ciência.

    Obra de Alair Gomes que integra a coleção de Roberto Pontual

    A existência dessa coleção chegou aos nossos dias graças à dedicação de Vincent Wierink, companheiro de longa data e herdeiro universal de Pontual. Vincent, que faleceu recentemente, manteve viva a memória de um homem que os artistas adoravam por sua “insaciável curiosidade e gentileza”. O acervo é o testemunho de um casal que, em pleno Rio de Janeiro dos anos 70 e 80, colecionava não apenas objetos, mas visões de mundo que desafiavam as normas da época.

    O Olhar de Alair Gomes e a Carne do Barroco

    Um dos grandes destaques do leilão foi a presença de obras fundamentais de Alair Gomes, o fotógrafo que transformou o corpo masculino em monumento. Entre as peças, brilharam a Opus n°17 — uma suíte de 10 fotografias de rapazes nas areias do Rio — e fragmentos da Opus n°3.

    Para Pontual, a fotografia de Alair não era apenas erotismo, mas uma manifestação daquela “sobrevida do Barroco” que ele tanto defendia em seus textos. Ele via na luz sobre os corpos de Alair a mesma pulsão carnal e dramática que definia a identidade brasileira. Ter essas obras em casa era, para o casal, uma afirmação cotidiana de desejo e identidade.

    Alair Gomes, parte do número 9 da obra opus 3 (Imagem: Maurice Auction / Howard Payen)

    Explode! A Geração que Redescobriu o Corpo

    Roberto Pontual foi o crítico que deu nome e fôlego à “Geração 80” em seu livro Explode Geração! (1985). Ele foi o primeiro a entender que a arte produzida naquele momento de redemocratização precisava de “corpo e sangue”. Ao lado de artistas como Leonilson, Pontual ajudou a moldar uma estética onde a subjetividade e a sexualidade deixavam de ser marginais para ocupar o centro da tela.

    Hoje, trinta e dois anos após sua partida, o legado de Pontual em Paris nos lembra que a arte é, acima de tudo, um território de sobrevivência. Entre o erotismo de Alair e a luta contra o HIV, sua história continua a pulsar, provando que o desejo, quando transformado em cultura, é eterno. O leilão acontece dia 31, mas a partir do dia 28 as obras estão expostas.