Tag: Música Eletrônica

  • O Neobarroco sonoro de Baroque Angel

    O Neobarroco sonoro de Baroque Angel

    Em um papo com Baroque Angel, produtor e DJ que se apresenta no dia 31 de novembro, na próxima Sxy em São Paulo falamos sobre sonoridade, influências, estética e principalmente sobre o EP LOVERBOY com seis faixas que acaba de ser lançado nas plataformas digitais. O trabalho é a sequência do álbum HEAVEN SENT de 2025 e que merece a sua audição.

    Confira a conversa:

    BAROQUE ANGEL lança o EP “LOVERBOY”

    DUDX: Cheguei ao seu som por indicação da Virgo Virgo quando ela compartilhou o lançamento de Loverboy, e a qualidade sonora impressiona de imediato: é um EP com densidade de álbum. Olhando sua trajetória no SoundCloud, percebe-se que é um material gestado com bastante método. Como foi o processo de maturação desse trabalho?

    BAROQUE ANGEL: Fico muito feliz com a recepção. Compor o Loverboy ao longo do último ano foi um processo muito especial. Em meados de 2025, lancei meu primeiro álbum depois de trabalhar em dois EPs anteriores (Presságio, de 2020, e Angel Complex, de 2023). Naquele disco, eu estava em um momento introspectivo, explorando sonoridades com BPMs mais baixos, sem focar tanto na funcionalidade da pista. Só que, como DJ, logo após o lançamento senti falta de uma linguagem que traduzisse diretamente o que eu queria comunicar na pista de dança. Foi aí que comecei a produzir o Loverboy, justamente para expressar minha sonoridade em um ambiente puramente club.

    DUDX: Seus trabalhos anteriores, como Presságio e Angel Complex, já traziam pistas em faixas como “Baroque Angel Club Theme”. Como você enxerga a transição sonora daquele momento para o som que você propõe agora?

    BAROQUE ANGEL: Meus dois primeiros EPs refletem com muita fidelidade o que a pista representava para mim naquelas fases. Presságio girava em torno dos 130 BPM, com uma pegada orientada ao house, toques de techno e drum and bass; já Angel Complex trouxe elementos de acid e electro, mantendo essa base rítmica. Recentemente, acelerei bastante o andamento, mergulhando no techno e no hard dance, somando referências de funk brasileiro e guitarras, mas sem perder o verniz pop que sempre atravessou minhas produções. Quanto ao espaço físico, sou muito versátil: gosto tanto da energia de pistas monumentais quanto do calor de um bar ou de um inferninho.

    DUDX: O hard dance chega com muita força em faixas como “Sentimental” e “Hércules”, mas sem abrir mão da acidez e de uma polirritmia muito atual — em “Hércules”, por exemplo, o funk se faz notar; em “Sentimental”, há uma energia contagiante de hard pop dance. Como o EP foi parar no catálogo da AnGeLZ?

    BAROQUE ANGEL: A AnGeLZ é a label italiana que lançou o EP. Já acompanhava e admirava o catálogo deles há alguns anos e, desde que iniciei o projeto no fim do ano passado, desenhei o trabalho pensando neles. Quando o EP estava quase finalizado, enviei as faixas acompanhadas da proposta visual. Eles toparam de imediato e o processo foi excelente, com total autonomia artística para o lançamento.

    DUDX: Há uma conexão clara entre o nome da gravadora e o seu próprio universo estético. De onde vem a assinatura Baroque Angel? Em trabalhos anteriores, como Heaven Sent, a presença do cordeiro evoca diretamente parábolas bíblicas e imagética sacra.

    BAROQUE ANGEL: Essa assinatura começou antes mesmo da produção musical, quando passei a tocar como DJ. Na época, meu usuário no Instagram era @baroqueangel14 e decidi adotá-lo artisticamente porque sintetizava bem o que eu buscava. Sempre tive fascínio pela arte barroca e uma ligação afetiva com a figura do anjo desde a infância. Replicar esse simbolismo nos títulos e nas capas foi algo orgânico; busco manter os conceitos visuais e os nomes das faixas alinhados ao que essa identidade evoca.

    DUDX: Você também assina a criação das suas capas?

    BAROQUE ANGEL: No início produzi algumas peças sozinho, como a capa do single “DRAMA”, do primeiro EP. Depois, as capas dos EPs e do álbum foram desenvolvidas em colaboração com grandes amigos, a partir de ideias que propus ou de processos coletivos. Mesmo não executando tudo sozinho, faço questão de manter uma direção criativa muito ativa em cada detalhe gráfico.

    DUDX: Essa intersecção entre referências religiosas, tecnologia e pós-apocalipse tem aparecido de forma muito potente na cultura brasileira recente — vide trabalhos de artistas como Pabllo Vittar e Jaloo, que remixam o sagrado e o profano sob uma perspectiva neobarroca. Quais artistas nacionais alimentam sua pesquisa criativa?

    BAROQUE ANGEL: Tanto a Pabllo quanto a Jaloo são referências fundamentais que acompanho e admiro há muito tempo. Além delas, tenho o privilégio de conviver com artistas incríveis ao meu redor. Do ano passado para cá, comecei a assinar produções para outros projetos, o que tem sido muito enriquecedor. Produzi faixas para a Shi e para a própria Virgo Virgo; trabalhar nos álbuns delas simultaneamente ao desenvolvimento do meu EP retroalimentam e influencia diretamente a sonoridade de Loverboy.

    DUDX: Você tem circulado intensamente nas pistas como DJ. Pensa em expandir essa performance para um formato live act? O que podemos esperar dos seus próximos passos?

    BAROQUE ANGEL: Cheguei a experimentar o formato de live durante minha graduação em Produção Fonográfica na Anhembi Morumbi, testando bastante coisa em estúdio, mas ainda não montei uma apresentação pública nesse formato. É uma dinâmica diferente que tenho vontade de explorar, até pela diversão do processo em tempo real. Ultimamente tenho me sentido muito estimulado na produção. Já dei início a alguns esboços que devem ganhar corpo como meu segundo álbum de estúdio, com a ideia de criar uma narrativa mais longa e aberta a novas experimentações sonoras.

    DUDX: Eu também espero, porque além de querer suas tracks pra tocar nos meus sets, vou aguardar novos lançamentos para minhas playlists, pois seu som entrou para um dos mais ouvidos desse ano pra mim — talvez eu seja o maior ouvinte de “Problem Solver” do Spotify (risos)! Mais uma vez, parabéns!

    Bruno Baroque: (Risos) Eu fico feliz demais que tenha curtido! Significa muito pra mim. Muito obrigado pelo espaço para dividir um pouco do meu processo!

  • ESM: Por que FKA Twigs, Robyn e Peaches tornaram o sexo na pista um ato político

    ESM: Por que FKA Twigs, Robyn e Peaches tornaram o sexo na pista um ato político

    ESM – Eletronic Sex Music em alta com Eusexua, Sexistential e No Lub So Rude

    A convergência entre FKA Twigs, Robyn e Peaches entre 2024 e 2026 marca um momento histórico: a pista de dança reforça a sexualidade de maneira literal. Não estamos mais ouvindo metáforas. Com os lançamentos de Eusexua (FKA Twigs, 2024), No Lube So Rude (Peaches, 2026) e o recente Sexistential (Robyn, 2026), a palavra sexo deixou de ser um tabu para se tornar um palco de autonomia corporal.

    FKA Twigs: A Mística da Clareza Orgásmica

    Aos 38 anos, a inglesa FKA Twigs abre esse portal com Eusexua. Sua trajetória, marcada pela fusão entre a fragilidade do R&B e a vanguarda eletrônica, atinge uma clareza inédita. Para Twigs, o sexo na pista é uma experiência mística — um estado de “clareza orgásmica” que serve como antídoto para a automação da vida moderna.

    Sua corporeidade propõe uma androginia que domina as tecnologias do corpo, traduzindo-as em sons etéreos e um visual experimental que flerta com o pós-humano. É o prazer como autodescoberta e cura.

    Robyn: Existencialismo, Maternidade e Beats 4/4

    A sueca Robyn, aos 46 anos, traz a bagagem de quem sobreviveu a múltiplas eras da indústria mantendo sua integridade emocional. Em Sexistential, ela utiliza sua posição consolidada na música eletrônica para questionar o desejo na meia-idade.

    Robyn parece estar em casa neste novo álbum excêntrico que refina as pulsações luminosas do sintetizador de Body Talk para explorar sexualidade, sentimentalismo e a criação da vida.
    Robyn parece estar em casa neste novo álbum que refina as pulsações luminosas do sintetizador de Body Talk para explorar sexualidade, sentimentalismo e a criação da vida.

    Sua contribuição é a intelectualização do ritmo. Ela prova que a pista é o lugar onde processamos nossas crises existenciais. Para Robyn, o sexo é a prova de que ainda estamos pulsantes — uma afirmação que ecoa a postura de Björk, que sempre se posicionou como uma clubber eterna. Na faixa-título, Robyn dialoga consigo mesma sobre ser solteira, mãe e navegar por aplicativos e terapia, desconstruindo o que “pode ou não” na vida adulta.

    O Vanguardismo de Peaches: Prazer contra o Fascismo

    Sonoramente, Peaches causa uma revolução contínua. Seu vanguardismo, que já pulsava em Fuck The Pain Away, ganha novas camadas em No Lube So Rude. Prestes a completar 60 anos, a canadense não está apenas revisitando o que pavimentou; ela está denunciando a aspereza do sistema.

    Ao falar de “fricção sem lubrificante”, Peaches é interseccional: traz para a composição o amadurecimento, a vivência LGBTQIA+ e a resistência contra o etarismo. Ela usa sua longevidade para provar que o prazer é uma arma política contra o fascismo e a caretice do século XXI.


    “Falar de sexo na pista de dança hoje é desmistificar uma opressão histórica. É transformar o suor em manifesto.”


    Uma Genealogia do Prazer na Música Eletrônica

    Essa ruptura não é por acaso. A virada para o “S E X O” sem metáforas deve muito a Donna Summer (1975) e ao orgasmo no centro da pista, além da crueza de Grace Jones e Madonna nos anos 80.

    Mas é no vanguardismo de Peaches, desde os anos 2000, que o termo deixou de ser um convite para se tornar um comando de autonomia. Enquanto Twigs navega pelas nuances do corpo e das relações sem rótulos, e Robyn mostra a sensualidade pós-maternidade, Peaches consolida a ESM (Electronic Sex Music) como um gênero de resistência.

    Fico feliz de ver esse termo sendo falado sem alegorias. O sexo precisa deixar de ser um tabu em nossas conversas públicas. Não há nada de profano em um ato que está no cerne da humanidade. É tempo de celebrar a fricção, a verdade e a autonomia.