A pista também é território político.
Entre grave, corpo e identidade, trago aqui três artistas que transformam som em linguagem e presença em revolução.

Bem, acho que não seria possível não começar por ela.
Existe um lugar que sempre penso:
o mundo precisa te escutar.
A forma como a BASSAN moldou sua estética é uma reafirmação direta de que o funk é música eletrônica.
Para mim, pessoa trans nascida na periferia, é conforto e potência viver o mesmo tempo que uma DJ travesti funkeira ocupa qualquer espaço, seja no topo do Martinelli ou na rua onde nasci.
Minha última experiência de pista escutando ela foi na favela de Heliópolis, onde eu nasci.
Ela com um celular e um paredão.
Você escuta uma acapella da Mc Pocahontas, do Mc Magrinho, e logo vem uma virada de chave que faz o peito estourar com o grave do outro lado da rua.
A sensação é como uma corrida de Fórmula 1:
você não vê o carro, mas escuta ele perfeitamente.
Velocidade.
Entrega.
Estudo sonoro único.
DJ BASSAN é essa confirmação:
o baile virou autódromo.

Minha segunda indicação é DJ Alirio.
Tenho escutado muito o set que ela gravou para a Veneno enquanto trabalho em casa.
Existe um momento em que você entra numa conexão e se sente:
Gisele Bündchen em O Diabo Veste Prada, sexy e gata, trabalhando no escritório.
A pesquisa dela atravessa diferentes estilos, mas sempre conectados por batidas que se completam e traduzem um poder de falar sobre feminilidade sem falar.
Você sente.
O efeito é direto:
você se entende como dona do escritório.
Quando falamos de transição, se fala muito de disforia.
Mas ao escutar Alirio, percebo como o som também é empoderamento e força, muito mais do que estudos e palavras conseguem explicar.
A cada virada de música, eu me sinto mais envolvida com o som e comigo mesma.
Diria assim:
não viva sexy.
viva escutando Alirio.

Minha terceira indicação é Kontronatura.
Em 2024, com toda certeza do universo, foi o melhor set que eu escutei naquele ano.
E foi o set que eu escutei o mês de setembro inteiro.
Hoje sinto que o melhor set dele é sempre o próximo.
Tenho ouvido muito o set com Nick León no Carnaval de 2025
e já sei: em 2026 não quero perder um set dele no Carnaval.
Muitas vezes estamos produzindo festas juntos e eu sei exatamente quando ele está tocando, mesmo estando do outro lado do espaço.
O som é acelerado.
Hipnótico.
Você dança automático, como nos desenhos animados em que o mágico hipnotiza todo mundo.
A curadoria dele atravessa ritmos como o kuduro, um som que dá vontade de pular e dançar corpo de baile.
Existe um meme que diz:
“Olho pra pista e falo, é só mexer o quadril.”
Num set do Kontronatura, isso vira regra.
Parado você não fica.
Enquanto espero o próximo set, sigo escutando meu favorito no SoundCloud, e deixo aqui pra vocês também mexerem os quadris.

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