Eu já havia ouvido o som do Saâda Bonaire, feito o download de algumas tracks e visto o clipe de “You Could Be More As You Are”, mas, até o momento em que me perguntei o que as palavras “Saâda Bonaire” significavam, eu não tinha ideia de onde eram, nem o que duas mulheres brancas faziam de burca e pinturas faciais com um som experimental ou “Global Sound”.
Nessa pesquisa, o primeiro ponto é que Bonaire e Saâda são dois lugares: Saâda vem da província Bou Saâda, ou Boussada, na Argélia, e quer dizer “lugar de felicidade” em árabe. Já Bonaire é uma ilha caribenha que fica bem próxima à Venezuela. Se a gente olhar no mapa, existe uma linha reta entre ambas, dividida pelo Oceano Atlântico. Apesar de estarem próximas em latitude, não existe uma rota física entre essas localizações, mas, de alguma maneira, o projeto de Stephanie Lange, Claudia Hossfeld e do produtor e DJ Ralph von Richtoven criou essa rota no universo musical.

Claudia e Stephanie (foto) se conheceram em uma audição para backing vocal de uma banda. Ambas tinham muita coisa em comum e queriam formar o próprio projeto. Stephanie (1961) e Ralph já se conheciam desde os seus dezessete anos. Isso tudo acontecia em Bremen, na Alemanha.
Ralph, além de produtor, também trabalhava na prefeitura local com imigrantes, e está aí a grande diferença musical que o Saâda Bonaire teria diante de tudo. Eles gravaram sessões com diversos músicos imigrantes com os quais, muitas vezes, não havia sequer comunicação em alemão ou inglês, mas que musicalmente contribuíram para a construção da sonoridade múltipla e global do projeto.
Com vinte sessões gravadas com músicos no centro comunitário de Bremen, o Saâda Bonaire assinou com a EMI e gravou no lendário estúdio “N”, onde o Kraftwerk já havia gravado. Só que a EMI rompeu com o projeto no lançamento do primeiro single, “You Could Be More As You Are”, em 1984. O que era uma promessa de estouro pop com sonoridade new wave e múltipla não chegou às paradas de sucesso devido aos altos gastos com festas durante a produção, estourando assim o orçamento diversas vezes, até que o contrato fosse descontinuado.
Com muitas camadas e material para lançar três discos, o projeto não conseguiu emplacar em outra gravadora e, logo depois, Claudia Hossfeld o deixou. Então, Stephanie e Ralph (que hoje são amigos) tiveram que parar com as atividades em 1986.
Saâda Bonaire em segunda formação
Em 1988, Ralph começou a colaborar com Mike Ellington, que havia montado um estúdio no antigo sex shop de seu pai. Então, em 1991, as coisas conspiraram para que os produtores, munidos de um AKAI S1000 e um computador Apple, pudessem trazer novamente o Saâda Bonaire à vida, já que perceberam que suas produções tinham uma sonoridade próxima àquela com a qual Ralph havia trabalhado entre 1982 e 1984.

“Só é de verdade se você pode fazer duas vezes”. Então, chamando Stephanie Lange novamente para gravar, Mike apresentou Andrea Ebert, que cantava profissionalmente e tinha desenvolvido técnicas vocais na igreja. Juntas, Stephanie e Andrea (foto) tinham um contraste harmonioso que se encaixava nas produções de Mike e Ralph. Em 1992, o Saâda Bonaire era muito diferente do que se formara com Claudia Hossfeld. O quarteto formado uma década depois possuía personalidades muito distintas.
Entre 1992 e 1993, eles gravaram algumas das canções que estavam guardadas, com edição e mixagem feitas por Matthias Heilbronn. Andrea, que tinha uma história muito diferente da de Stephanie e, consequentemente, uma maneira diferente de cantar, fez uma passagem por Nova York. Quando voltou, em 1993, gravou junto com Stephanie, Mike e Ralph a faixa “So Many Dreams” e outras três músicas. Com essa nova visão musical de Andrea, o ritmo do Saâda Bonaire também havia mudado, ficando mais próximo dos 130 BPMs.

Mas como um grupo de origem alemã, tocando um som com instrumentos turcos e curdos, que muitas vezes parecia britânico ou americano, com influências tão específicas, iria se encaixar em um mercado como o do ano de 1994? Naquele momento, Janet Jackson, Mariah Carey, Crystal Waters, Madonna, Erasure, Bon Jovi e Babyface dominavam as paradas musicais.
A fusão contraditória de tantos elementos não encaixava o Saâda Bonaire em nenhum estilo. Mas foi essa inconformidade com um único rótulo que levou, hoje, um LP deles a custar mais de quinhentos reais. O caminho torto levou o projeto direto para a lista dos especialistas musicais como algo precioso e alternativo, quarenta e quatro anos após sua criação.
Entre as composições, encontram-se letras sobre sonhos, amizades e a afirmação do feminino, além de sonoridades múltiplas que seguem por diversos caminhos e se apropriam de tantas camadas culturais. É por se apoiar em uma sonoridade única e se tornar tão indefinido por ser uma mistura muito diversa que o projeto, ainda hoje, não é apontado como um problema de apropriação cultural. E talvez seja por essa falta de definição, em um mundo tão rotulado, que o projeto mostrou que você pode ser mais como você é.
Você pode acompanhar mais informações sobre Saâda Bonaire no site oficial.

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